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Home Office: muito além de uma alternativa

Atualizado: 22 de dez. de 2020



Pelos motivos que todos sabemos, desde a semana passada boa parte das empresas de comunicação/tecnologia do País iniciaram o movimento de liberar seus funcionários para que trabalhem no modelo de Home Office. E agora pipocam diariamente no LinkedIn diversos posts e matérias completas com “top dicas e práticas” sobre o tema. Já surgiu até card do “guru do Home Office” passando aqui na minha timeline...

Legal, cada um com a sua verdade. Eu prefiro abordar o assunto por outra ótica: a do João Paulo.

João Paulo é Gerente de Projetos (a.k.a. "GP") de uma grande multinacional em São Paulo. Casado, com dois filhos pequenos. Apartamento e carro financiados. João Paulo é referência de sucesso profissional para os amigos e família que, em sua grande maioria, continuam lá em Birigui, no interior. Se mudou para capital paulista na época da faculdade (começo dos anos 2000) e por lá construiu sua vida adulta.

João Paulo vive em um espectro de comportamento profissional herdado da Geração X. Um padrão que ele acredita fielmente ser a chave do sucesso. Ele sabe que é privilegiado, pois o pai pagou a sua faculdade e a pós-graduação; ele e a esposa ralam para se manter em outro padrão (o sócio-econômico) que os possibilite viver bem (segundo as crenças que possuem) e preparar o futuro das crianças (segundo as crenças que possuem).

Um dia laboral típico do João Paulo poderia ter o seguinte cenário imaginário-fictício (mas acredite, isso é bem próximo da realidade para profissionais como o João Paulo):

  • 06:00 - Acordar.

  • 06:30 - Deadline para sair de casa.

  • 07:15 - Deadline para deixar os filhos na escola.

  • 08:30 - Deadline para chegar no trabalho. No trajeto, João Paulo se mantém atualizado com podcasts ou simplesmente curte aquela playlist batida do Dire Straits.

  • 09:00 - João Paulo tem meia-hora para encher a caneca de café, limpar os spams da caixa de entrada e verificar o Twitter (até porque ele precisa ter assunto para a hora do almoço).

  • 10:30 - Fim da primeira reunião do dia. Status de projetos. João Paulo vai para o canto do café papear com os outros GPs sobre as piadas e comentários que rolaram em paralelo, durante a reunião, no grupo de WhatsApp.

  • 10:40 - Reunião com o Cliente. Projeto atrasado. João Paulo escuta e, quando questionado, responde com argumentos técnicos embasados, mas bem pontuais (pois ele não tem todo contexto do projeto). O Cliente não se convence.

  • 11:45 - Final da reunião. Ficou decidido que será agendando outro call, com outras pessoas, na semana que vem, para verificar a possibilidade de criar um grupo de trabalho capaz de construir um plano para mitigar o atraso.

  • 12:00 - Almoço; é dia de feijoada. A empresa é legal pois disponibiliza 2h diárias para a refeição dos funcionários. Deslocamento até o shopping, fila para entrar, fila para comer, fila para pagar (passa no crédito, porque já é dia 19 e o VR acabou). João Paulo é fluente em futebol, política e nos trend topics. Ele mente pra si mesmo, creditando que está cercado de amigos.

  • 14:15 - Hora de verificar o status das próximas entregas com as equipes. O sono pega forte; mais café na caneca. Como os squads estão espalhados em diferentes unidades da empresa, ele mantém uma agenda/processo bem organizado de call-conferences. 3h depois de muitos checkpoints, todos os controles estão atualizados.

  • 17:00 - João Paulo faz um resumo-geral dos projetos que cuida e cola no WhatsApp do seu Gestor. O Gestor, por sua vez, não diz nada. Apenas responde: “aquele Cliente que deu problema de atraso quer ver você no Rio amanhã; já emitimos a sua passagem; resolve lá”.

  • 17:01 - João Paulo fica puto, pois amanhã é o dia da apresentação do filho menor na escolinha. Ele se sente culpado.

  • 17:10 - Surgiu uma demanda urgente. Call de emergência (Cliente mais importante da empresa). 15 pessoas na linha para falar sobre uma ideia que o Cliente teve; concluem que não entenderam direito do que se trata, mas deve ser feito "nem que seja colado com durex" e publicado até o domingo a noite, antes do Fantástico. Avisam ao João Paulo que o deadline do orçamento é amanhã, 9:00. João Paulo anota o que ele acha que deve ser e dispara e-mail para os fornecedores.

  • 18:00 - Hoje tem despedida do Bruno; happy hour na Vila Madá.

  • 18:30 - O episódio das 17:10 é motivo de gargalhadas na mesa do bar. Momento de pura descontração. Mas João Paulo sabe que precisa ter os orçamentos às 08:50 na sua caixa. Já mandou WhatsApp pressionando os fornecedores a não furarem com ele.

  • 19:30 - Como o João Paulo é um cara responsável, ele fica apenas no refrigerante. E vai pra casa cedo.

  • 20:10 - Com o trânsito mais tranquilo, ele chega a tempo do Jornal Nacional.

  • 21:30 - É hora de colocar as crianças na cama.

  • 22:30 - João Paulo está moído. Já é hora de dormir, pois amanhã cedo tem viagem pro Rio.

João Paulo passa mais de 14h por dia dentro do seu padrão profissional. O tempo líquido de convivência com a esposa e as crianças soma no máximo 2h do dia.

João Paulo está condicionado a repetir esse mesmo modelo, diariamente, sem questionar muito. Afinal de contas, é a chave do sucesso. Mas, no fundo, ele se sente triste.

Há 3 dias atrás o João Paulo foi comunicado pela empresa que ele deve fazer Home Office. A esposa recebe a mesma orientação. Ele fica tranquilo, pois já trabalha com todas as ferramentas on-line e com reuniões remotas. Nada vai mudar.

Mas muda. Pois o cenário atual exige uma alteração brusca de comportamento. De padrões.

As crianças ficarão em casa. O transporte parou. O shopping fechou. Ao invés de receber apenas memes, os grupos de WhatsApp bombam com desinformação e com diálogos preocupantes entre os familiares. O café, almoço, lanche e janta precisam ser providenciados em casa. Acabou o papo furado nos corredores da empresa. Fim das refeições de 2 horas. Pautas canceladas e sem nova necessidade de viagem de última hora.

João Paulo tem agora 14h por dia para ficar próximo de sua família.

No começo é tudo muito confuso. Todos ainda perdidos quanto a nova dinâmica e rotina familiar. Aos poucos, João Paulo se dá conta que brincou muito mais com as crianças. Que conversou muito mais com a esposa. Que conseguiu trocar aquela lâmpada que estava há 3 meses queimada. Que foi possível sair rapidamente para comprar café e pão, no meio da tarde. E que isso não atrapalhou em nada os calls e entrega de projetos.

Ele se sente estranhamente mais leve com a nova rotina. Combina com a esposa a dinâmica e divisão de responsabilidades profissionais e pessoais, no mesmo ambiente. Consegue ser mais objetivo com os Clientes e com a equipe. Ignora o desfoco do WhatsApp pois, naquele momento, está envolvido com a louça. Ao finalizar a atualização do cronograma de próximas entregas, aproveita para colocar a roupa na máquina de lavar.

Com o trabalho em dia e sem perder tempo com ilusões e bullshitagem corporativa, decide fazer um jantar para todos. João Paulo não tinha memórias de quando isso aconteceu antes.


Pela primeira vez ele se via como um cara feliz.

Poucas semanas após a nova rotina estabelecida, João Paulo tem certeza que o segredo do sucesso que ele tinha aprendido desde pequeno estava completamente equivocado.

Poucas semanas após a nova rotina estabelecida, João Paulo recebe um e-mail formal da empresa solicitando que todos voltem ao Escritório. E agora, João Paulo?

Suspeito que o João Paulo vai adoecer se retornar para a antiga rotina. Assim como as empresas acertaram em liberar a todos nesse momento de caos, é importante que façam um exercício de avaliação no momento do retorno. Entendam como os funcionários sentiram; o que deu certo e o que deu errado. Escutem as pessoas/suas experiências nesse período de isolamento.

O Home Office, nos segmentos em que ele se aplica, é muito mais do que uma simples alternativa ao escritório: é um modelo que permite reescrever os padrões de produtividade. Que fornece dados qualitativos e quantitativos para que se revise o atual modelo econômico dos negócios e das relações entre Clientes-Empresas. Que possibilita adotar jornadas de trabalho mais humanas e flexíveis, além de implementar ferramentas e processos modernos de gestão.

E, no caso do João Paulo, foi o que o libertou do autocentrismo, proporcionando que ele revisasse e refletisse sobre quanto tempo do dia ia pro lixo, por ele apenas viver a repetição dos padrões alheios.

O João Paulo, sua família e as próximas gerações agradecem.


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